1/06/2007

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um individuo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para frente... tudo vai ser diferente!"

Carlos Drummond de Andrade

1/05/2007

Futuro

Menina, você tem futuro, assim como todos que sobrevivem à esse momento, afinal o tempo não espera a tua competência e o mundo não frea para te acompanhar.

1/03/2007

Sonho

Onde está você
Que me visita todas os dias
Mas não se liberta das amarras do inconsciente?

1/02/2007

(no aeroporto) - Pílula II


- Um expresso, por favor.
- Puro ou com leite?
Não entendo. Pedi um café, se desejasse algo mais no café teria dito “Um pingado, por favor”. Pronto!
Certa vez, eu devia ter 10 anos, deixa aí uma margem de erro de 2 anos para mais ou para menos, e comia um pão de queijo na lanchonete da esquina (da minha casa), como de costume, quando chegou um cliente novo.
- Um misto-quente, por favor.
- Com queijo e presunto ou só com queijo?
Ah, mas o cara não ficou puto? Só faltou bater na Adriana (a moça é uma das poucas xarás que já conheci)!
- Eu disse misto! Mis-to, o nome mesmo diz, não vê? Leva queijo e presunto - esbravejou.
- Desculpa, mas é que tem gente que não gosta de presunto, aí eu tenho que perguntar, né!
O sujeito não precisava ser grosso, mas concordo que se ele quisesse sem presunto, pediria um queijo quente ou acrescentaria “Sem presunto, por favor!”.
Mas eles sempre perguntam, gostam de gastar saliva.

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Hora de pagar.
- Dois reais.
Na carteira, uma nota de R$10 e uma de R$5. Que saco, odeio ter que pegar troco. E aposto que a mulher do caixa também. Fazer o quê? Dá 5 lá. Toma 3 cá.
Preguiça de guardar na carteira, vai no bolso mesmo.
“Ué, tem alguma coisa aqui!”
Duas notas de 1 real bem amassadinhas...
Isso me lembra uma passagem de Fama e Anonimato, de Gay Talese, em que ele descreve brilhantemente, entre outras coisas, a rotina de Nova York, com o olhar atento aos detalhes que passam desapercebidos por pessoas comuns. Talese escreve que, às seis da manhã, a caixa de dinheiro dos ônibus fica cheia de moedas, isso porque as pessoas que usam o transporte coletivo nesse horário também pertencem à classe trabalhadora e procuram ajudar o motorista, pagando com a quantia exata.
E eu nem para enfiar a mão no bolso para procurar trocado.

(no aeroporto) - Pílula I


O saguão do aeroporto de Congonhas tem papais noéis em círculo e do primeiro andar dá para ver os outros que estão no andar de cima, com poses e caras felizes. De volta aos gordinhos barbudos do andar de baixo, um menino de 6 anos, por aí, é bem menos fotogênico que o bom velhinho. Ou menos exibido. Ou menos falso, ou mais verdadeiro. Ou ele simplesmente está de mau humor. Ou já não acredita que um velho com pêlos cor de neve em volta da boca e barriga abaixo descerá pela chaminé de sua casa e repousará sob a árvore de Natal o último lançamento do Playstation. Chega de suposições, o fato é que o menino não sorri para a foto, que a mãe insiste em tirar. Até abraça o personagem natalino, mas seu semblante e sua postura corporal são de total indiferença. O braço direito da criança descansa sobre os ombros do gigante ao seu lado. O outro está largado no ar. O garoto não sorri, ou, pelo menos, não sorria. Talvez fosse melhor deixar a cena assim, e a mãe, na sensibilidade de seu instinto materno, ao olhar a foto no visor diria: “Ficou lindo, filho!”. Mesmo que preferisse que o moleque esboçasse uma mostra de dentes. Sei que, se eu fosse aquela criaturinha, também estaria entediada, mesmo assim não respeitei a sua espontaneidade. Ou era a sua ou a minha, e só agora percebo isso. Foi automático: estava eu descendo a escada rolante, olhei para a cara do menino e, em poucos segundos, estava de pé três metros atrás das costas da mãe, fazendo carinhas felizes e dando tchauzinhos infantis. O menino exibiu a janelinha e eu fui tomar um café.