(no aeroporto) - Pílula I

O saguão do aeroporto de Congonhas tem papais noéis em círculo e do primeiro andar dá para ver os outros que estão no andar de cima, com poses e caras felizes. De volta aos gordinhos barbudos do andar de baixo, um menino de 6 anos, por aí, é bem menos fotogênico que o bom velhinho. Ou menos exibido. Ou menos falso, ou mais verdadeiro. Ou ele simplesmente está de mau humor. Ou já não acredita que um velho com pêlos cor de neve em volta da boca e barriga abaixo descerá pela chaminé de sua casa e repousará sob a árvore de Natal o último lançamento do Playstation. Chega de suposições, o fato é que o menino não sorri para a foto, que a mãe insiste em tirar. Até abraça o personagem natalino, mas seu semblante e sua postura corporal são de total indiferença. O braço direito da criança descansa sobre os ombros do gigante ao seu lado. O outro está largado no ar. O garoto não sorri, ou, pelo menos, não sorria. Talvez fosse melhor deixar a cena assim, e a mãe, na sensibilidade de seu instinto materno, ao olhar a foto no visor diria: “Ficou lindo, filho!”. Mesmo que preferisse que o moleque esboçasse uma mostra de dentes. Sei que, se eu fosse aquela criaturinha, também estaria entediada, mesmo assim não respeitei a sua espontaneidade. Ou era a sua ou a minha, e só agora percebo isso. Foi automático: estava eu descendo a escada rolante, olhei para a cara do menino e, em poucos segundos, estava de pé três metros atrás das costas da mãe, fazendo carinhas felizes e dando tchauzinhos infantis. O menino exibiu a janelinha e eu fui tomar um café.

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